terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O NOSSO BIÉ - CHINGUAR - ANGOLA , DE FILOMENA ALCOBIA.

Chinguar era sede de Concelho, ficava a 1.811 metros de altitude, uma vila não muito grande, mas muito urbanizada. Vila muito hospitaleira, em especial quando se comemorva a festa do dia 12 de Maio, que era festejada no alto da serra, a que chamavam "morro", e onde muitos anos atrás tinha sido construída uma capelinha, cuja padroeira era Nossa Senhora de Fátima.

O nome de Chinguar - quer dizer "terra das perdizes", por noutros tempos, ali ter havido muitas; deriva das palavras indígenas  "Chingue" (casa) e "Guari " (perdiz).

A população e arredores acorriam ao local, onde se fazia uma procissão com o andor de Nª. Sª. aos ombros, num caminho muito íngreme. Depois da missa, que era campal, cada qual arranjava um recanto, onde cada um fazia o seu almoço, ali mesmo, ao ar livre: boas caldeiradas, churrascos, pastéis de bacalhau, etc.,etc..

Não faltavam as malandrices do Tété (Coelho), que na brincadeira ia "rapinar" os pastéis  de bacalhau pelas barracas alheias. Tudo isto feito na maior das alegrias.

Da parte da tarde havia música, com matiné animadissíma. O recinto ficava cheio de gente simples e animada, e só à noitinha é que a malta se ía embora, com a alegria e felicidade estampadas nos rostos. Quantos namoriscos ali começaram, e que mais tarde, acabavam em casamento.

Havia ainda outros festejos, que eram comemorados no dia 15 de Agosto, dia de Nª. Sª. da Assunção, padroeira da Vila.

Das pessoas mais antigas do Chinguar (e até do tempo da Guerra 14-18) os chamados "colonos", eram o João Gordo, o Correia (Salussinga), o Manuel Marques (dono dos moinhos de água, que ficavam a 11 quilómetros da vila, a caminho do Chitembro), o Raimundo Sapateiro, o velho Cabral, os Seabras, o Campos de Oliveira, o Pais de Oliveira, o velho Cravo, o Lopes Alves, o Costa da pensão, etc., etc..

O atrás citado senhor Raimundo, era um adepto ferrenho do Sporting de Portugal. Quando este club ganhava, ele punha sempre um boneco (jogador do Sporting) feito em arte indígena, à porta da sua casa, para fazer pirraça aos adeptos do Benfica, que por lá passassem. Estes ficavam furiosos com a provocação...Chegavam a dar pontapés no boneco...Chagava a haver grandes  "makas"...Mas depois acabava tudo em bem.Se calhasse até iam beber um copo juntos...

O seu club desportivo de futebol era a Associação Benficiente Recreativa do Chinguar, e foi fundado por volta de 1925. Eis os nomes de alguns jogadores que faziam parte do grupo desportivo (1928) António Darte, Vila Nova, João Pinto, António Pinto, João Morais, Ascenso, Luís Almeida, Chico Alves...

Mais tarde por volta de 1950, a equipa era formada (entre outros), por: Adriano Achino, Correia, Nongue, Joel, António Seabra, Aveleira, António Cabral, Fernando Valente, Óscar Valente, Manuel Barros, Paiva, Cartucho (italiano)... O treinador era o Aspirante Correia de Oliveira.

O Chinguar era terra de muita fruta e boas hortaliças, que se exportavam para o litoral: entre outras frutas, destacam-se os apetitosos morangos. Repolhos seguiam em grandes cestas, para outras zonas, via C.F.B..O comboio chegava a estar parado por uma hora, a carregar este géneros.

Pensa-se que o nome do comboio de mercadorias, o tão conhecido" Camacouve", tenha tido origem  aqui no Chinguar,  pelo facto de serem carregadas tantas couves para outras zonas, com menos produção destes produtos.

O C.F.B., no quilómetro 516 teve o seu términus, durante muitos anos, neste vila do Chinguar, pois a ferrovia chegou ali por volta de 1917, e só arrancou novamente até Camacupa em 1928, sendo assim durante esses anos todos, a vila do Chinguar, o ponto mais forte do comércio no centro de Angola. O comércio era feito com pessoal que vinha dos Luchazes, de Serpa Pinto, do Bailundo, etc.

Conheci a Vila do Chinguar, foi lá que casei, em 1972,  as minhas duas filhas nasceram lá. Vivi,  naquela vila alguns anos. Até dia 12 de Setembro de 1975.  Data em que, com muita pena tive de partir.  Hoje, recordo os bons momentos de felicidade que lá passei. Bem como, todas, as pessoas com as quais tive a oportunidade de conviver.

3 comentários:

  1. Sim Sim Angola. Não deixes de ser valente.
    Quem a conheceu tem saudade dela Tempos do belo Camarão e da Cuca.
    Esse povo um dia terá o que deveria ter. Angola está condenada a um dia ser uma terra prospera e onde as suas gentes possam viver com dignidade humana.

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  2. Olá amigo!
    Este artigo me deu uma agonia de saudade. Não vivi no Chinguar mas tenho um vizinho que lá viveu e passamos as horas a falar dos lugares onde vivemos em Angola. Ele era mestre de máquinistas do CFB. Os seus filhos nasceram lá e já vieram, também em 1975, com 10 e 16 anos. Ele é conhecido po Gonçalves e a esposa é a Dª Amália. Poderá ser que alguem conheça. Eles falam muito desses convivios tal como também eu vivi.

    Um abraço
    Adoro ler os seus escritos.

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  3. A Rapaziada hoje está saudosista, o Leiria recorda a sua incorporação na Marinha, aqui recorda-se Angola e o tempo lá vivido, e nós apesar de nunca termos estado em África, mercê dos elementos trazidos pelos que lá viveram, vamos ficando mais conhecedores de como eram as coisas nos anos de guerra.
    Este era um trabalho para a nossa comunicação social, mas como esta se vai entretendo com mexericos, valham-nos os antigos Combatentes para nos falarem destes novos Países, dos seus hábitos e costumes.
    Um abraço
    Virgílio

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CANCIONEIRO DO NIASSA

IMAGENS DO NOSSO CONVÍVIO, EM 08/10/2011.

IMAGENS DO CONVÍVIO REALIZADO DIA 9 DE OUTUBRO DE 2010