quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"PASSEI UMA TROPA DE LUXO"



Abilino Fresco, Moçambique, 1963/1966.
"Passei uma tropa de luxo"

"Apenas vivi um momento de perigo: a viatura onde eu seguia passou por cima de mina que não rebentou. Estive sempre na cantina, onde aconteciam histórias caricatas.

Há quem diga nunca ter visto uma guerra como a minha. Nunca dei um tiro e só uma vez estive em perigo. De facto, sempre tive sorte, desde que assentei praça no Regimento de Infantaria 5 nas Caldas da Rainha. Depois fui tirar a especialidade de transmissões em Mafra e de seguida fui formar a Companhia no Regimento de Infantaria 7, em Leiria. Embarquei a 10 de Outubro de 1963 no Cais da Rocha do Conde de Óbidos e regressei a 1 de Março de 1966, no Vera Cruz.

Quando chegámos a Vila Cabral, no distrido do Niassa, a norte de Moçambique, tive, mais uma vez, a sorte de ter um capitão que foi o meu padrinho, o capitão Tovim, que me colocou na cantina do Batalhão, onde passei uma tropa de luxo. Só uma vez estive em perigo. Uma mina anticarro rebentou quando íamos fazer compras para abastecer a cantina. Eu ia no segundo carro e o rebentamento aconteceu quando passou a terceira viatura, o que quer dizer que passámos por cima dela. Deixou um buraco no solo que cabia lá um camião dentro. Felizmente não martou ninguém, mas vários ficaram feridos.

Passei o serviço militar a servir o pessoal na cantina. Chegaram a estar lá sete companhias pertencentes ao nosso Batalhão de Caçadores 598. Tinha dias em que vendia dez cântaros de vinho.

Das minhas recordações de guerra guardo essencialmente episódios curiosos. Um dos colegas mais engraçados que tínhamos era o Costa, o matador de gado. Ouve um dia que resolveu fazer uma brincadeira com camisolas do Sporting e do Benfica. Pegou numa delas e começou a desafiar um boi. Msa o animal em vez de se atirar à camisola atacou-o a ele.

Como eu era o responsável pelo, ele pediu para guardar lá o boi que tinha matado. Eu, convencido de que era para consunirmos, acedi. Só depois me apercebi que era para o vender no exterior ao proprietário de um restaurante. O problema  foi passar o boi, uma vez que todas os carros eram revistados. Mas o amigo Costa depressa arranjou solução: colocou-o dentro da carrinha do comandante, que era o único que não era revistado, e transportou-o para o exterior. O Costa recebeu metade do dinheiro do boi e eu andei um mês a jantar fora.

Nessa altura, o 1º. sargento da companhia pertencia  à arma de Cavalaria e fazia questão de o referir no momento da formatura. Considerava ele que deveríamos ser os que melhor se comportavam, mas verificava o contrário, avisando-nos para termos cuidado por ser da Cavalaria. Nesse momento ouve-se uma voz: Nota-se pelas orelhas!' Resultado, estivemos fornados até à meia-noite, mas ninguém se denunciou.

Na cantina, em Vila Cabral, todos os dias acontecia uma cena diferente, mas sempre divertida.Em determinada ocasião surgiu o capitão Costa na cantina nuito aflito porque dos seus mapas constava que o vinho tinha acabado há três ou quatro dias. Era hora de almoço quando apareceu e ficou muito admirado por ver que todas as mesas tinham vinho.

Perguntava, incrédulo: Como pode ser?' Só acreditou quando o levámos ao depósito e depois de contar 38 pipos cheios de vinho, cada um deles com100 litros. Aí ele perguntou, como conseguiam tamanha proeza, ao que o cabo encarregado do depósito respondeu: 'Enquanto a água não faltar em Vila Cabral, o vinho também não falta!' Explicaram-nos depois que tiravam 20 litros de vinho em cada pio e adicionavam 20 litros de água.

Já de volta ao refetório encontrámos um cozinheiro, o amigo de Peniche, enfiado dentro de um pipo. Tinha escorregado lá para dentro quando ia buscar vinho. Se eu não aparessese para o puxar  morria afogado.

Em outra ocasião o 2º. comandante, o major Fradinho da Costa, e o tenente capelão mandaram-nos arranjar um frango com muito piri-piri e só depois verificaram que não havia vinho nem cervaja. Então o capelão lembrou-se que tinha ainda uma garrafa de vinho da missa. Depois andou uma quantidade de meses a dar a missa sem vinho.

Uma das cenas que mais me recordo foi quando o capitão Costa me mandou  ir ao banco buscar todo o dinheiro que lá estava, mas recomendou que levasse  um saco utilizado para transportar farinha, com capacidade par 75 quilos. Eu pensava que ia buscar meia dúzia de contos, mas quando lá cheguei o gerente estranhou que fosse sozinho. Quando ele abriu o cofre verifiquei que estava cheio. Para caber todo no saco de 75 quilos foi necessário acamar bem as notas. O banca ficava a cerca de 500 metros do quartel, mas no momento em que transportava o dinheiro pareceu-me  muito mais longe. Caminhava com o saco às costas aflito, porque me dava a sensação de que toda a gente vinha atrás de mim. Transportei 24 mil contos, dinheiro que era para distribuir por todas as companhias.

Houve um período em que um major não queria que se matassem porcos e já há muito que não se consumia desse tipo de carne no quartel. Uma noite em que o rádio-montador Dinis ficou de guarda aos porcos ouviu-se uma rajada de tiros às 03h00. Ficaram todos aflitos, menos eu que já sabia o que se passava. No dia seguinte o sargento ia participar dele por ter morto o maior porco. Mas o oficial de dia decidiu antes dar-lhe um louvor, com o argumento de que tal atitude revelou que estava atento, pois em vez de um porco podia ser um terrorista.

Para comer carne de ovelha usava-se um truque diferente. Os colegas que trabalhavam no depósito dos géneros quando descascavam batatas faziam um carreiro com as cascas até ao local onde estavam os animais. Então, as ovelhas iam comendo as cascas e quando chegavam ao depósito eles matavam-nas.


SÓ VIU A ÚNICA FILHA QUANDO REGRESSOU, TINHA ELA DOIS ANOS

Abilino Fernandes Fresco nasceu a 10 de Fevereiro de 1942. Era casado quando foi para Moçambique, tinha 21 anos. A sua filha nasceu em Janeiro de 1964. Só a viu quando regressou, tinha ela dois anos. Antes da tropa, trabalhou com um advogado, em Coimbra-Ao regressar foi para os serviços administrativos do Hospital Psiqiátrico do Lorvão, onde estava 20 anos. Depois exerceu funções no Centro de Estudos e Profilaxia da Droga-e no Estabelecimento Prisional de Coimbra. Encontra-e aposentado há dez anos.
                                                                                                   

1 comentário:

  1. Histórias que fazem a própria história e que a memória não deixa que se apaguem.
    Felizmente que a NET nos deu esta possibilidade das imortalizar.
    Prova, provada do bom humor que existia e a capacidade de as pessoas darem a volta a situações ora difícies or de outro teor, mas numas e noutras com muito poder imaginativo e mestria. Parabéns.
    Adorei.

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CANCIONEIRO DO NIASSA

IMAGENS DO NOSSO CONVÍVIO, EM 08/10/2011.

IMAGENS DO CONVÍVIO REALIZADO DIA 9 DE OUTUBRO DE 2010